Bolha de espaço pessoal

Fomos jantar com um casal amigo.
O restaurante era daqueles sítios modernos onde terminam o vosso prato, cozinhando à vossa frente. Um barulho dos demónios.

Para matar tempo, enquanto esperávamos pela comida, meti conversa com o namorado da minha amiga:
– Está a correr bem o trabalho?
E ele não me ouviu. Não ouviu nada do que eu disse e quase encostou o nariz no meu, disponível para me dar conversa. Lançou-se para cima da minha cara sem qualquer aviso.
– Não ouvi. – disse o rapaz educadamente. Fiquei desconfortável. Como poderia não estar? Com um polaco de quase 2 metros, 3 vezes mais pesado que eu, quase a dar-me uma cabeçada de tão pertinho que estava de mim.

Quando reparei, estava quase toda dobrada para trás, como que pronta para fazer a ponte que nem ginasta de alta competição.
Não gosto que ocupem o meu espaço pessoal, devia de ser considerando abuso de privacidade. Que estejam tão perto de mim que quase parece estarem a usar a minha boca em vez da deles para falar. Talvez tenha cara de megafone.
Bem, cada um nasce para o que nasce.

Olhei para o Peter Pan, embaraçada com a situação e para tentar safar-me da cena. Queria pedir ajuda e  ser salva daquele embaraço todo mas ele nada.
Percebia-se perfeitamente que o rapaz só estava a tentar ouvir o que eu tinha para lhe dizer. Eu é que lhe tinha feito uma pergunta (uma estúpida pergunta de ocasião, maldita a hora) para dar uma de pinta de acolhedora.Pergunta essa que tinha-se acabado de tornar na minha própria forca.

Voltei a repetir num tom normal, uma vez que ele já estava praticamente a dar-me um beijinho de esquimó, a mesma pergunta.
– O trabalho! Vai bem?
E o óleo do cozinhado dispara ao máximo, pessoas a falar, pratos a serem servidos, copos a brindar.
E mais uma vez ninguém ouviu o que eu disse, quase nem eu própria…
– Desculpa, não ouvi outra vez. – E o rapaz vai de se chegar ainda mais perto, talvez apenas só um milímetro, visto que não havia muito mais espaço para tal manobra do que isso.

Dei dois passos para trás, num sentimento misturado entre vergonha e medo e disse:
– Estou a sentir-me incomodada. Não gosto que as pessoas falem tão perto de mim. Sinto literalmente que estás a invadir a minha pequena bolha de espaço pessoal.
Disse isso ao mesmo tempo que fazia muitos gestos com a mão à roda. Gestos esses que representavam a minha bolha a ser invadida.
Não só para que desta vez ele compreendesse, mas também para ver que quase mal tinha espaço para fazer esse mesmo movimento.

E ele riu-se (devia achar que era piada o garoto) e disse que queria honestamente ouvir-me mas estava tanto barulho que não conseguia. Mas não descolava o focinho da minha frente, a olhar-me nos olhos, postos à minha altura (uma vez que teve de se baixar quase 2 patamares para estar tão perto da minha cara).
– Epa, deixa estar não consigo. Falamos na mesa. Não aguento, é demais para mim.
Rendi-me. Respondi eu agora num tom alto, quando já não havia o barulho do início da terceira guerra mundial na cozinha, e ja não era preciso berrar. Tão típico.

Isso ouviu ele bem, encolheu os ombros e meteu as mãos nos bolsos das calças, sem dar a devida importância ao acontecimento.
Fui me sentar na mesa desolada, derrotada como quem tinha acabado de passar por uma experiência traumatizante.

3 comentários sobre “Bolha de espaço pessoal

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